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Textos sobre Iowa

Caríssimos,

Acabo de publicar alguns textos sobre Iowa no meu site pessoal (www.lucasmafaldo.com). Assim que tiver tempo, importarei todos os textos que estão lá para cá, assim como os que não foram publicados ainda, porque circularam apenas por e-mail para os assinantes da minha newsletter.

Como vocês podem imaginar, meu tempo está bem corrido por causa do Aristoi (www.aristoi.com.br).

Eis os textos, na ordem de publicação:

Expectativas para Iowa

Iowa: a disputa pelo terceiro lugar

Iowa: Huckabee e Obama são os vencedores

Depois, enviarei uma análise mais completa para os assinantes do meu boletim. Para se inscrever gratuitamente nele, basta usar este formulário.

Um abraço,
Lucas

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COMENTÁRIO LUCAS MAFALDO - No. 14 - 23/12/07
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EDIÇÃO ESPECIAL: Eleições presidenciais americanas
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www.lucasmafaldo.com
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Caríssimos,

Para aqueles que acabaram de chegar – e para aqueles que estão aqui há mais tempo, mas estão estranhando a irregularidade deste boletim – explico que tenho estado bastante ocupado com o Aristoi: um projeto meu e de um amigo – o Silvio Grimaldo – de montar uma editora dedicada à educação liberal.

Apesar das eventuais dificuldades, estamos sempre avançando um pouco – e o querido leitor já pode visitar nosso novo site (agora em domínio próprio): www.aristoi.com.br

Caso goste do projeto, peço que tenha a gentileza em divulgá-lo entre os possíveis interessados.

Para compensá-los dos atrasos do boletim, estou enviando uma edição especial com uma análise geral das eleições americanas: farei tanto uma explicação geral do processo, como irei assinalar as tendências para os próximos meses.

Além disto, trago links para três novos textos. Os links estão logo abaixo e análise está no fim.

As votações para a eleição presidencial estão prestes a começar – os republicanos votam em Iowa no dia 3 e em New Hampshire no dia 8 – e logo as primeiras notícias chegarão aos nossos jornais e revistas. O texto abaixo deve dá-los boas noções para interpretar estas notícias.

Para os que já acompanham esse boletim ou o noticiário americano, haverão algumas informações repetidas – mas acredito que ainda assim o texto vale a pena - eu, pelo menos, ainda não vi outra apresentação tão completa do tema em português.

Aproveito para desejar um Feliz Natal a todos – espero que o passem na companhia dos seus entes queridos, na lembrança de que este é o dia para comemorarmos o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Um grande abraço,
Lucas Mafaldo

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Dez anos do Indivíduo

“O Indivíduo fez 10 anos de existência. (…) Acredito que, nestes dez anos, houve três fenômenos culturais na internet, cujos frutos em breve se verão fora dele: o Indivíduo, os Wunderblogs e Olavo de Carvalho. (…) Cada uma destas iniciativas, a seu modo, deixou uma pequena marca na cultura brasileira. Quantitativamente, ela talvez pareça pequena - mas acho que ninguém duvidará da profundidade de sua influência.”

Para ler mais:
http://snipurl.com/lm_ind

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Projeto Aristoi

Nosso objetivo é traduzir e publicar dezenas de livros sobre educação liberal e conservadorismo; um material que há décadas circula pelo primeiro mundo e, do qual, apenas fração chegou ao público brasileiro.

Para ler mais:
http://aristoi.com.br/projeto1.asp

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O propósito conservador de uma educação liberal

Escrito por Russell Kirk, traduzido por Marcio Hack.

“Nosso termo “educação liberal” é bem mais antigo do que o uso da palavra “liberal” no sentido político. O que agora chamamos de “estudos liberais” remonta aos tempos clássicos (…) A educação liberal é conservadora no seguinte sentido: defende a ordem contra a desordem. Em termos práticos, trabalha pela ordem na alma, e pela ordem na república. O ensino liberal habilita os que se beneficiam de sua disciplina atingir certo nível de harmonia interior”.

Para ler mais:
http://snipurl.com/aristoi_kirk

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Eleições presidenciais americanas em análise
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Nos últimos meses, tento tentado esclarecer um pouco do processo eleitoral americano, que é incrivelmente mais complexo – e interessante – que o nosso. Bom, nas próximas semanas, teremos a oportunidade de ver isto funcionando na prática: as primeiras votações irão começar e o assunto irá chegar em nossas revistas e jornais.

Por isso, escrevi este texto que traz tanto uma descrição geral do processo, como análise as tendências eleitorais do próximo mês.

A importância das primáriasComo eu já expliquei anteriormente, nos Estados Unidos, o processo onde cada partido escolhe seu candidato é algo que envolve toda a população e já é visto como parte integrante da campanha oficial. Ao contrário do Brasil, onde esta fase é vista como algo de interesse exclusivo de militantes e chefes de partido, nos Estados Unidos a participação popular já é bastante intensa deste este momento.Por isso, a eleição começa muito antes da escolha oficial dos candidatos. Enquanto as votações gerais ocorrem no meio do segundo semestre, as eleições internas já ocorrem no início do ano – e, além disso, a campanha pela nomeação oficial começa já no ano anterior. Ou seja, para a eleição oficial que ocorrerá no final de 2008, as chamadas “primárias” – o processo de escolha interna dos partidos – começarão em janeiro de 2008, enquanto a campanha pelas primárias começou no início de 2007 – quase dois anos antes da eleição oficial.

Além disto, cada partido possui várias correntes internas competindo pela liderança do partido e, por isso, estas eleições podem, de fato, mudar o caráter de um partido por décadas. É claro que existem lá, como aqui, alguns líderes que dominam parte da estrutura do partido e usufruem dela – mas este domínio nunca é total, pois inúmeros militantes estão sempre entrando no partido e contestando os líderes atuais. Ou seja, dentro dos próprios partidos existe uma competição partidária – e até ideológica.

O exemplo clássico é a campanha presidencial de Barry Goldwater de 1964. Goldwater tinha uma plataforma bastante conservadora e libertária, criticando com muita dureza o progressismo do Partido Democrata. E, de fato, ele era tão firme em suas posições que boa parte do Partido Republicano preferiu um candidato mais esquerdista: Nelson Rockefeller.

Goldwater perdeu feio na eleição geral – mas fez tanto barulho durante as primárias que mudou a cara do Partido Republicano. Ao vencer a nomeação geral sobre Rockefeller, a campanha de Goldwater acentuou a influência dos conservadores sobre o partido, empurrando-a para a direita.

Esta guinada conservadora do Partido Republicano é consensualmente vista como um dos principais fatores que preparou o partido para nomear Reagan como seu candidato oficial em 1980 – a eleição que o levou à presidência e fez dele um dos grandes líderes conservadores do final do século.

Esta fase inicial da campanha, portanto, longe de ser apenas uma “prévia” da campanha oficial, já é a própria campanha oficial – e suas conseqüências podem se estender muito além da própria eleição.

Como o processo funciona

Como também já expliquei aqui, antes dos partidos elegerem seus candidatos oficiais, é realizada uma série de votações onde cada estado elege os seus delegados que participarão da convenção geral que escolherá o candidato.

O interessante é que, ao invés de fazerem uma única votação nacional, cada estado escolhe a data da sua votação, fazendo com que todo o processo se estenda por meses.

Esta descentralização do dia da votação permite que os candidatos façam campanhas mais focalizadas; gastando mais tempo em estados específicos. Além disto, a demora no processo permite que a avaliação popular seja mais lenta e mais pensada – há tanto tempo entre o lançamento oficial de uma campanha e a convenção oficial que o povo tem inúmeros oportunidades de conhecer e até de se familiarizar com os candidatos.

O calendário: a importância dos primeiros estados

Cada partido tem seu próprio calendário e ele muda um pouco todo ano, mas tantos as mudanças anuais como as mudanças entre os partidos não são importantes, pois todo ano o calendário segue mais ou menos a mesma lógica que veremos a seguir.

Os dois primeiros estados a terem suas eleições são sempre Iowa e New Hampshire – nesta eleição, entre os republicanos, será no dia 3 e 8, respectivamente; entre os democratas será ligeiramente diferente.

Embora numericamente estes estados sejam pouco importantes, os votos nestes dois estados têm um peso enorme na opinião pública, pois assinalam para o resto do país quais são os “candidatos sérios”.

A vitória de um candidato menor em um desses estados o leva a aparecer em todos os noticiários nacionais – tornando-o imediatamente um candidato forte nos próximos estados. Igualmente, a derrota em um desses estados pode carimbar o candidato como “fracassado”, o que fará os estados seguintes desistirem dele.

Como todos sabem que estes primeiros estados têm uma importância enorme, todos os candidatos investem o máximo de recursos neles. Por isso, estes estados passam por uma superexposição de política, o que leva o resto do país a perceber estas votações como confiáveis balões de teste.

O curioso dessa configuração é que permite que a candidatura de alguém com poucas ligações políticas permaneça viável: basta que ele invista todos os recursos em um desses estados e, depois de vencer nele, utilize sua popularidade recém-conquistada para vencer os próximos.

O calendário II: a virada da “super-terça”

Por outro lado, o calendário eleitoral possui um segundo elemento que muda a balança do jogo em favor dos poderosos e contra os candidatos pequenos: a “super-terça” – como é chamado o dia onde dezenas de estados têm suas eleições simultaneamente e que acontecerá no dia 5 de fevereiro.A coincidência de múltiplas eleições em um mesmo dia, em um país com a extensão dos Estados Unidos, torna praticamente impossível que um candidato faça uma campanha efetiva em todos eles. Por isso, os candidatos precisam contar com a seguinte combinação: concentrar seus esforços em apenas alguns estados, ter equipes enormes para coordenar diferentes núcleos locais – e esperar ter exposição suficiente na grande mídia para se tornar nacionalmente conhecido.Um bom exemplo da virada que a “super-terça” pode causar em uma eleição pode ser vista na candidatura Pat Buchanan à presidência 1996 que, após vencer New Hampshire, teve que desistir por não conseguir competir em todos os estados da “super-terça”.

A coexistência destes dois elementos – alguns estados isolados votando antes e vários estados votando no mesmo dia – instaura uma tensão em toda campanha: cada um destes pontos pode provocar o fracasso ou o sucesso de uma candidatura.

Ou seja, mesmo um candidato grande, com muito dinheiro e com muita exposição nacional – Giuliani neste ano, por exemplo – pode simplesmente chegar na “super-terça” já derrotado. Por outro lado, um candidato de poucos recursos – um Huckabee ou um Ron Paul – pode ganhar tanto impulso nas primárias que se torne uma força nacional na “super-terça”… ou pode ser que esta força não seja o suficiente, e tenha que desistir da campanha, como ocorreu em 96 com Buchanan.

Enfim: o calendário não beneficia totalmente um lado ou outro: antes, instaura uma tensão dentro da qual cada candidato terá que manobrar.

O que isto significa para esta eleição

A distância entre estas duas datas é a margem de manobra que os candidatos pequenos têm para enfrentar os grandes. Os candidatos de poucos recursos precisam vencer as primeiras primárias e esperar que a exposição que ganhem seja suficiente para alçá-los a personalidades nacionais; enquanto os “grandes” precisam apenas sobreviver até a “super-terça” e esperar que sua superioridade nacional os dê uma vantagem decisiva.

Por causa da combinação destes fatores, ninguém é louco de dizer o que vai acontecer nas eleições americanas. Isso é o mais longe possível que temos de um jogo de cartas marcadas em política – quase tudo pode acontecer.

Do lado dos republicanos, a confusão é total: existem seis candidatos viáveis: Giuliani, McCain, Thompson, Huckabee, Romney e Ron Paul.

Do lado dos democratas, os candidatos sérios são menos numerosos e a coisa está praticamente definida: tratam-se basicamente de Hillary, Obama e Edwards.

Nos dois casos, a lógica é a mesma: os candidatos menores precisam se destacar nacionalmente até o fim de janeiro, senão o favoritismo recairá sobre os grandes candidatos “maiores”.

Ou seja, Hillary precisa manter a dianteira apenas por mais um mês e meio, e sua vitória estará consolidada. Dada a pouca habilidade dos seus oponentes – e muita habilidade política sua – é bastante provável que ela consiga isto.

Obama continua sendo o principal obstáculo de Hillary, mas seu tempo está acabando rapidamente: caso ele não consiga uma vitória decisiva em janeiro, ele provavelmente fechará a nomeação no início de fevereiro.

A disputa entre os republicanos

Vamos nos concentrar nos republicanos, onde a coisa está mais confusa – e, portanto, mais divertida.

Há algumas semanas, eu já dizia que só havia seis candidatos sérios: agora, a coisa está confirmadíssima, pois o sexto que citei então – Huckabee – disparou para os primeiros lugares, enquanto os demais candidatos desapareceram em total obscuridade.
Entre os seis candidatos republicanos sérios, existem três candidatos com intensa presença nacional, com muita exposição na grande mídia e com fortes contatos políticos: Giuliani, McCain e Thompson – vamos chamá-los, por enquanto, de “candidatos nacionais”.

Estes três candidatos, em parte por já terem uma sólida presença nacional, optaram por uma estratégia semelhante: estão fazendo uma campanha nacional e estão dando menos atenção aos primeiros estados que votam. Ou seja, eles sacrificaram Iowa e New Hampshire, para apostarem tudo na “super-terça”.

É verdade que, ao longo da campanha, alguns deles mudaram um pouco o foco: McCain passou a investir mais em New Hampshire e Thompson tem dedicado bastante tempo à Iowa. No entanto, no geral, a estratégia dos três é a mesma: se sair apenas razoalvemente bem nas primeiras votações e esperar uma grande vitória na “super-terça”. Uma estratégia, aliás, pouquíssimo tradicional na política americana.

Os outros três candidatos – Romney, Huckabee e Ron Paul – estão seguindo a estratégia tradicional: apostar quase tudo nos primeiros estados e esperar ganhar exposição o suficiente para vencer os demais candidatos na “super-terça”. Vamos chamá-los de “contestadores”

Ou seja: o resultado está totalmente incerto – mas em breve veremos definições.

No dia 3, em Iowa, o conflito importante é entre Romney e Huckabee. No dia 8, o conflito importante é entre Ron Paul e o resto da competição. Cada um desses três candidatos precisa ficar entre os primeiros lugares, caso queira ser o próximo presidente.

Os outros três precisam apenas de apresentações razoáveis o suficiente para continuarem parecendo candidatos viáveis até o início de fevereiro – o que é mais difícil do que parece.

Certamente veremos várias desistências nas próximas semanas. Em breve, todos os “candidatos menores” sairão de jogo; em seguida, os “candidatos sérios” citados acima começarão a desistir, um por um. No final de fevereiro, restarão apenas dois ou três competindo.

Como nas próximas semanas estará em jogo especificamente o combate interno entre os que estão seguindo o caminho tradicional, farei uma exposição individualizada da situação de cada um deles.


Os contestadores republicanos: Romney

Romney, apesar de ser um candidato bastante conhecido nacionalmente, entra nesta categoria por dois motivos: ele nunca conseguiu subir muito nas pesquisas nacionais e optou conscientemente por investir todas as suas fichas nos primeiros estados.

Apesar de ser filho de um político importante, o forte da carreira de Romney foi na iniciativa privada com um bem sucedido empresário. Romney utilizou este fama de administrador eficiente como trunfo eleitoral, sempre procurando parecer um sujeito dinâmico, pragmático e eficiente.

Esta estratégia o fez governador de Massachusetts, mas ele nunca conseguiu convencer a direita, por parecer pouco firme em seus princípios. Depois de hesitar muito em questões importantes para os conservadores – como a legalização do aborto e casamento de homossexuais – ele ficou com fama de “flip-flopper” – de mudar constantemente de lado conforme a platéia.

Ainda assim, ele tem conseguido recuperar algum respeito entre os conservadores, insistindo que, apesar das dúvidas do passado, agora ele é decididamente um “homem da direita”. Esta conveniente “conversão” de última hora não convenceu muita gente no início, mas, com o tempo, ele conseguiu apoios importantes – incluindo o apoio oficial da “National Review”, uma das revistas conservadoras mais tradicionais, e de importantes líderes religiosos.

Romney optou por uma estratégia bastante tradicional - investiu milhões de dólares em Iowa e New Hampshire – e tem se saído bem deste modo: nos dois estados, ele aparece entre os primeiros lugares.

Por ter investido tão pesadamente nestes estados, é absolutamente essencial que ele fique entre os dois primeiros em cada um deles. Caso Romney saia derrotado depois de investir tanto tempo e dinheiro, sua campanha sairá tão desacreditada que não duvido que ele desista dias depois.

Por outro lado, se ele ficar entre os primeiros, se tornará o franco favorito a se tornar o próximo presidente. Entre os “contestadores”, ele é o que tem mais capacidade para potencializar uma vitória nos primeiros estados.

Romney tem uma equipe competente, recursos financeiros e uma imagem extremamente presidencial – com a exposição decorrente de uma eventual vitória dupla nos primeiros estados, sua campanha ganhará tanta força que dificilmente alguém irá impedi-lo de se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos.

Em duas semanas, portanto, saberemos qual será o destino de Romney: uma vitória ou uma derrota em Iowa e New Hampshire definirão o futuro de sua campanha.

Os contestadores republicanos: Huckabee

O principal obstáculo à presidencial de Romney é Huckabee, o ex-pastor que, com uma forte retórica religiosa caiu nas graças dos “social conservatives”, os conservadores religiosos - aqueles que votam motivados principalmente por questões morais, e que formam boa parta da base espontânea dos republicanos – o “ativismo grassroots”.

A base religiosa do partido republicano é extremamente organizada e ativa, mas não tinham um candidato que a representasse fielmente. Talvez ainda não tenha, mas, na falta de um candidato melhor, escolheu Huckabee como representante – e não há duvidas que o sucesso do ex-pastor se deve inteiramente a este apoio.

Huckabee, no entanto, tem sérios problemas nesta eleição. O mais grave é a total rejeição que os “fiscal conservatives” - os conservadores em questões econômicas - sentem por ele. Huckabee não apenas aumentou notoriamente os impostos durante seu período como governador como tem se mostrado um fraco defensor do livre-mercado. Carregando na retórica populista, Huckabee ganhou o apoio dos religiosos, mas certamente perdeu o apoio dos liberais, no sentido econômico da palavra.

Além disto, Huckabee tem feito sua campanha com uma estrutura muito pequena e de poucos recursos. Para sobreviver à “super-terça”, Huckabee precisa arrecadar muito mais dinheiro e conseguir ainda mais exposição na mídia nacional. A princípio, isso é inteiramente possível – mas seria muito mais fácil se a ala liberal dos republicanos não o rejeitassem tanto.

O futuro de Huckabee poderá ser vislumbrado já no próximo dia 3: nas eleições de Iowa.

Iowa é o estado onde o voto religioso tem mais peso – e, por isso, lá estão as melhores esperanças de Huckabee. Ao contrário de Romney e Ron Paul, ele não pode esperar até New Hampshire: se ele não vencer em Iowa, não vencerá em outro lugar. Por isso, o primeiro confronto importante desta eleição é entre Huckabee e Romney – os dois precisam vencer Iowa para continuarem na campanha.

Embora Huckabee esteja menos preparado do que Romney para potencializar estes primeiros resultados, uma vitória aumentará muito sua importância na campanha. Se ele vencer, ele se tornará um dos favoritos – e, mesmo que não se torne o candidato oficial, provavelmente será convidado a compor o próximo governo.

Os contestadores republicanos: Ron Paul

Em muitas maneiras, a campanha de Ron Paul é parecida com a de Huckabee: são dois candidatos com pouco dinheiro, com pouca expressão nacional, mas que continuam crescendo basicamente por causa do “grassroots”, das redes espontâneas de ativismo político. Por outro lado, elas são totalmente diferentes em outros aspectos – e estas diferenças são muito interessantes.

Ao contrário de Huckabee, Ron Paul não tem um “público-alvo” específico: seu apoio vem de diferentes grupos sociais e políticos. Alguns se interessam pelo seu não-intervencionismo em política externa, outros pela sua defesa dos direitos individuais e outros, ainda, por ele ser o candidato que quer reduzir mais radicalmente o tamanho do governo.

Além disto, em termos financeiros, Paul tem crescido de maneira surpreendente: seus militantes organizaram dois dias nacionais de doação, arrecadando mais de 4 milhões de dólares da primeira vez, e mais de 5 milhões na segunda.

Sem falar que ele tem uma das militâncias mais entusiasmadas e criativas que eu já vi. Para terem uma idéia da empolgação do pessoal, saibam que eles simplesmente arrecadaram centenas de milhares de dólares para criar um dirigível para Ron Paul. Vejam o link e me digam se já viram coisa parecida: www.ronpaulblimp.com

Este entusiasmo pela campanha de Ron Paul faz dela um fenômeno totalmente diferente da de Huckabee – e muito mais interessante.

Huckabee é um candidato que foi recrutado pelos “social conservatives”; ou seja, ele não tem apoio próprio; é apenas o representante de um movimento pré-existente. Ron Paul, por outro lado, é um caso totalmente diferente: ao redor da sua candidatura está se formando um novo grupo de “grassroots”; pessoas que nunca se envolveram na política estão montando redes de contato e organizando ações muito efetivas.

A candidatura de Ron Paul, portanto, não é apenas uma candidatura: é um verdadeiro movimento; estamos vendo um novo grupo político se organizando e uma nova geração de ativistas se formando.

Ainda é cedo para dizer o que acontecerá com este movimento; talvez ele se fragmente e perca sua força após esta eleição, mas a alternativa mais provável é que – após a provável derrota de Ron Paul – o grupo encontre formas de se organizar e de se preparar para influenciar as eleições futuras.

Por isso, o caso de Ron Paul é muito peculiar entre os candidatos: ele é o único que, mesmo que saia derrotado da eleição, terá criado um movimento que irá ultrapassar toda esta campanha – e que provavelmente sobreviverá ao seu fundador.

Como a campanha de Ron Paul é, ao mesmo tempo, um movimento político e uma eleição presidencial, ela precisa ser analisada em dois níveis diferentes: o nível eleitoral e o nível da influência a longo prazo. Mesmo que ele perca a eleição, sua influência pode continuar – e crescer – nos próximos anos.

No nível eleitoral, Ron Paul precisa vencer em New Hampshire para ter chances de ser o próximo presidente. New Hampshire é um estado onde a idéia de liberdade é extremamente forte e, sendo esta a principal bandeira de Paul, foi lá onde ele investiu a maior parte dos seus recursos. Ron Paul tem feito uma campanha bastante intensa na região: fez várias visitas, fez campanhas de rádio e televisão e tem um grupo de ativistas no local bastante ativo.

Caso Ron Paul fique em primeiro ou segundo no estado, a mídia começará a considerá-lo um candidato sério e ele terá boas chances de se sair bem na “super-terça”. Ele provavelmente terá pouco dinheiro para coordenar campanhas em todos os estados, mas seus militantes são tão ativos e organizados que provavelmente farão um belo trabalho paralelo à campanha oficial.

Por outro lado, mesmo que ele saia derrotado de New Hampshire, ele dificilmente desistirá de sua candidatura. Afinal, ele não se candidatou para vencer as eleições – isso parecia totalmente impossível há alguns meses -, mas sim, para divulgar suas idéias. Mesmo que pareça totalmente possível se tornar o próximo presidente, ele provavelmente continuará na campanha somente para influenciar o debate.

Ou seja, a campanha de Ron Paul já não tem como foco a vitória política, mas a ação cultural: difundir suas idéias e formar uma nova geração de militantes. Obviamente, ele não pode declarar isso, porque tiraria toda a energia de sua campanha, mas mesmo seus admiradores – nos quais eu me incluo – sabem que suas chances de vitória são mínimas.

Resumindo: Ron Paul precisa se sair bem em New Hampshire para ter chances de ser o próximo presidente – a mesma situação que Huckabee enfrenta em Iowa. Por outro lado, mesmo que saia derrotado, ele continuará na campanha para solidificar sua base de apoio e aumentar sua influência.

A campanha de Ron Paul tem sido muito comparada com a de Goldwater em 1964: uma derrotada política, seguida por uma vitória cultural. Será que a comparação procede? Pessoalmente espero que sim – mas só o tempo dirá.

Cenários prováveis

Existe um bom motivo para não fazer previsões políticas: ninguém pode ter certeza do que vai acontecer quanto decisões humanas estão em jogo; dado o grau de liberdade que os agentes possuem, é muito fácil fazer apostas erradas. Ainda assim, serei imprudente e colocarei abaixo minhas previsões dos cenários mais prováveis.

1) Se Romney vencer em Iowa e New Hampshire, ele provavelmente será o próximo presidente dos Estados Unidos. Ele deve vencer a maioria dos outros estados e, depois, não terá muita dificuldade em vencer Hillary nas eleições gerais.

Por outro lado, se ele perder nos dois estados, está fora da campanha.

2) Mesmo que Huckabee fique em primeiro lugar em Iowa, isso não é garantia de que ele será o próximo presidente. Ele certamente vai se tornar um candidato influente, mas tudo ficará aberto pelos próximos meses.

Se ele for derrotado em Iowa, ele também cairá fora da campanha – talvez mais rápido do que Romney, por ter menos dinheiro para sustentar a vaidade de continuar aparecendo em rede nacional.

3) Ron Paul dificilmente será o próximo presidente – para minha infelicidade pessoal, pois, como vocês já perceberam, ele é de longe meu candidato preferido -, mas para que ele tenha alguma chance, ele precisa ficar bem posicionado em New Hampshire. O cenário ideal para Paul é ficar em terceiro em Iowa e em primeiro em NH. Caso isso ocorra, talvez ele tenha alguma chance de chegar às eleições gerais.

O mais provável, no entanto, é que ele não se saia tão bem nesses estados, mas que ainda assim continue na campanha para divulgar suas idéias – e, depois de terminada a campanha, ele provavelmente terá muito trabalho como líder de um novo grupo político.

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Trecho da primeira edição do Comentário Lucas Mafaldo, enviado em 22 de julho de 2007.

 

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Bush e os neoconservadores: entre a direita e a esquerda
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(artigo enviado para o Litoral, jornal local do RN)


No imaginário brasileiro, Bush já se tornou sinônimo de direitista; por isso, cada derrota política sua – como a ocorrida nas eleições parlamentares do ano passado - é vista como uma derrota da direita.
Isto, no entanto, é um grande engano: um dos grandes motivos da queda da popularidade de Bush é justamente o fato de que seu governo deixou sua base conservadora decepcionadíssima. Ou seja, o problema de Bush não é ser de direita – o problema é não ser direitista o suficiente.

Provas disso não faltam, mas a mais eloqüente certamente é o título do livro de Vigueire sobre a presidência de Bush: “Conservadores traídos”. O sentimento de traição vem do fato de que Bush simplesmente não fez as reformas conservadoras que se esperava dele, como cortes nos gastos públicos e diminuição do aparelho do Estado. Ao invés disto, os gastos públicos e a inferência estatal na vida e na economia das pessoas chegaram a aumentar ainda mais. Ou seja: a política
interna de Bush é pouquíssimo conservadora, e este é um dos grandes motivos que o levaram a perder o apoio popular.

Além disto, se a política interna de Bush não é tipicamente de direita, sua política externa não fica muito atrás. Os brasileiros já se acostumaram a pensar que o militarismo e o expansionismo americanos são típicas políticas de direita, no entanto, há muitos bons argumentos afirmando exatamente o contrário.


A principal influência ideológica sobre o governo de Bush é o neoconservadorismo que, apesar do nome, é significativamente diferente do conservadorismo original. É verdade que existe algo em comum entre eles: todos colocam um alto valor na democracia representativa, na divisão dos poderes, nos direitos civis e na economia de mercado. No entanto, as diferenças entre eles são importantíssimas.


A principal característica do projeto neoconservador é procurar expandir a democracia pelo mundo, usando todos os meios necessários, inclusive a força militar. Os conservadores tradicionais não acreditam na viabilidade deste projeto, pois eles entendem a democracia só é possível quando já existem certos requisitos morais e culturais na população. Ou seja, se um povo não está culturalmente preparado para viver democraticamente, simplesmente não vai ser possível forçá-lo a
mudar de regime político.


A idéia de transformar o Iraque em uma democracia, portanto, é tipicamente neoconservadora, mas é também uma idéia que os verdadeiros conservadores julgariam simplesmente impossível de ser realizada.


Bush, portanto, não é um bom representante do conservadorismo filosófico. Os conservadores o apoiaram principalmente porque faltaram líderes melhores. Uma situação, aliás, que irá se repetir novamente nas próximas eleições, caso nenhum candidato conseguia unir a base do movimento conservador.


(Fim do artigo - continuação exclusiva para os assinantes do boletim)

 

As raízes esquerdistas do neoconservadorismo


O que eu não mencionei no meu artigo para o jornal, por falta de tempo, foi que existe até mesmo um autor, Justin Raimondo, que defende que o neoconservadorismo está em total descontinuidade com a antiga direita americana.


Ainda não pude ler o seu livro sobre o assunto, mas pelo que entendi dos artigos, ele defende que o neoconservadorismo é simplesmente uma deturpação do conservadorismo original, causada, de certo modo, pela “conversão” de vários trotskistas à direita.


Estes ex-militantes trotskistas - mesmo depois de se converterem da importância da economia de mercado, do Estado de direito e da democracia representativa – continuaram com alguns “hábitos de pensamento” típicos da ideologia que tinham abandonado: especialmente a idéia da “revolução internacional” que, agora, já não teria mais como objetivo a expansão do socialismo, mas sim, a da democracia.


Neste artigo, Jeet Heer tanto mostra como ex-militantes trotskistas – entre eles o próprio Christopher Hitchens - se tornaram influentes dentro do partido republicano, como também mostra a controvérsia em torno deste tipo de afirmação:

http://home.alphalink.com.au/~radnat/austindependence/neo-cons.html

Para quem se interessar, o livro de Raimondo pode ser adquirido por aqui:

http://antiwar.com/raimondo/book1.html

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Os Conservadores e as primárias republicanas


Ao final do artigo, mencionei brevemente a ausência de uma liderança conservadora. Como meu propósito é também oferecer uma cobertura sobre a candidatura de Ron Paul, acredito que seria interessante oferecer um breve quadro sobre a situação atual das eleições.


Os candidatos que estão na frente – em dinheiro e nas pesquisas – são Romney e Giuliani. Nenhum dos dois possui sólidas credenciais conservadores. Romney já foi atrás e voltou na questão do aborto e do casamento entre homossexuais. Ultimamente, adotou um discurso fortemente conservador, mas o seu histórico como governador não aponta na mesma direção. Giuliani é firme na questão de segurança, mas adota posturas esquerdistas em relação ao direito de portar armas, casamento homossexual e aborto. Os conservadores, obviamente, não confiam muito em nenhum dos dois. O terceiro candidato mais bem colocado – McCain – está perdendo dinheiro e pontos nas pesquisas. Além de sempre ter sido visto como um republicano moderado, já está quase fora das eleições.


Por este motivo, todos os olhos estão voltados para Fred Thompson, que nem lançou oficialmente sua candidatura ainda e, no entanto, já está sendo alvo de críticas por parte dos conservadores:


”Conservatives, Beware of Fred Thompson - Richard A. Viguerie”
http://snipurl.com/1olyb

Tirando estes, restam apenas aos conservadores, candidatos pouco conhecidos e com pouquíssimo dinheiro, como Brownback, Hunter e Tancredo. Até agora, não me parece que nenhum destes três tem chances razoáveis de conseguir vencer as primárias.


O único dos candidatos de “segundo escalão” a ganhar notoriedade foi Ron Paul, mas o movimento ao redor dele não corresponde ao campo conservador. Ao redor dele está se formando um grupo de pessoas com diferentes orientações ideológicas: libertários (alguns mais à esquerda outros mais à direita), constitucionalistas, esquerdistas anti-guerra e pró-direitos civis e, evidentemente, também alguns conservadores.


Sua rígida posição contra a guerra do Iraque, no entanto, o tem afastado da base conservadora. Além disto, nem todos os conservadores simpatizam com todas suas propostas libertárias (como sua intenção de parar com a “guerra contra as drogas”).


Caso Paul pudesse somar o apoio dos grupos conservadores de grassroots ao seu círculo fiel de seguidores, talvez tivesse força suficiente para competir com os candidatos fortes, mas ainda não há indícios de que isso irá acontecer. Parece que a guerra se tornou tão importante ao ponto dos republicanos preferirem eleger o abortista e anti-armas Giuliani a um autêntico representante da antiga direita como Paul.


Alguns autores, no entanto, estão defendendo que mesmo com a provável derrota de Paul, sua candidatura servirá para revitalizar a antiga direita e formar toda uma nova geração de políticos.


É o que Justin Raimondo, por exemplo, defendeu em seu último – e excelente – artigo: “Ron Paul: a consciência do conservadorismo”. O artigo é longo, mas a leitura realmente vale a pena.


”Ron Paul: The Conscience of Conservatism.”
http://snipurl.com/1olz0

Ron Paul certamente foi um dos candidatos que mais gerou expectativas em Iowa; basicamente porque ninguém tinha muita certeza de qual seria sua colocação final. Havia desde quem achasse que ele ficaria entre os últimos como quem esperasse que ele conseguiria pelo menos o segundo lugar. Tamanha disparidade nas expectativas merece uma explicação.

A campanha de Ron Paul certamente é uma das mais atípicas deste ano – tão atípica que merece uma explicação detalhada do assunto. Ela é um caso extremo de campanha descentralizada e de ativismo espontâneo. Isto, como eu falei em outros texto, é uma característica comum das campanhas americanas, mas no caso de Ron Paul isto foi levada a um ponto inédito. Aliás, já se fala abertamente que existem duas campanhas de Ron Paul: a campanha oficial, dirigida pela equipe do próprio Paul, e a campanha não-oficial, que não tem um centro de planejamento, mas sim, vários focos independentes, que se organizam através de blogs, fóruns on-line e grupos locais.

A campanha não-oficial, diga-se de passagem, tem sido extremamente eficiente; provavelmente até mais eficiente que a campanha oficial.

A campanha oficial de Paul claramente não tem o mesmo profissionalismo das campanhas de Romney, McCain e Giulini. Estes “grandes” candidatos têm equipes caríssimas e enormes, contratam as melhores empresas de publicidade, os melhores técnicos de comunicação, além de estarem o tempo inteiro em contato direito com os grandes órgãos de comunicação.

A campanha de Paul, por outro lado, transparece a todo momento tratar-se de uma campanha do “homem comum”. Paul certamente não é um novato na política – foi um membro do congresso por várias décadas – mas, mesmo assim, conseguiu permaneceu todo este tempo fora dos grupos de elite e das maquinações dos bastidores. Em uma de suas campanhas para o congresso, aliás, ele teve que enfrentar oposição dentro do próprio partido, que preferia eleger um candidato mais de acordo com os planos da elite dirigente.

Paul, portanto, sempre manteve uma áurea de “outsider”, do sujeito que entrou em Washgton sem precisar se dobrar a nenhum dos esquemas de poder. Isto, aliás, explica parte do seu sucesso político: a fama de austeridade, honestidade e firmeza em seus princípios acabou por gerar um círculo extremamente fiel de seguidores por todo o país. Mesmo se candidatando a deputado pelo Texas, Paul sempre recebeu múltiplas doações de outros estados, de indivíduos que acreditavam tanto nele que preferiam financiar um candidato de outra região.

Mas se ser um “outsider” pode ser muito útil para vencer eleições para deputado, as coisas ficam enormemente mais complicadas para se eleger para presidente. As eleições presidenciais exigem um grau muito mais alto de profissionalismo na criação e difusão de uma “imagem presidencial”. Ron Paul nunca aprendeu isso: por incrível que pareça, eis um político que se preocupa mais em estudar os assuntos e formar uma opinião própria bem fundamentada do que tentar lisonjear o público. Esta postura, evidentemente, tem como resultado solidificar a admiração de uma base fiel, mas não se traduz com tanta facilidade em votos da grande massa de eleitores.

Estas características de Paul – simplicidade, sinceridade e austeridade – tem se refletido na maneira como sua campanha oficial tem sido conduzida; afinal, esta é composta basicamente de familiares, amigos e colegas de décadas de trabalho, que já refletem o próprio modo de ser de Ron Paul. Isto tudo é muito bonito, não há dúvidas; mas a campanha não estava sendo conduzida com a agressividade necessária para ganhar as eleições. Por isso, os analistas experientes, desde o início, descartaram Paul como um candidato viável. É preciso entender porque eles tinham alguma razão: Paul realmente não tinha o tipo de estrutura de campanha que costuma caracterizar os futuros presidentes.

Por outro lado, o que estes analistas não consideraram foi o poder da militância espontânea de Ron Paul. Assim que os rumores de sua candidatura começaram a circular, os antigos fãs, fieis de longa data, logo começaram a agitar a internet a seu favor. O interessante é que esta empolgação, gerada por pessoas fora da campanha oficial, logo cresceu gigantescamente, fazendo de Ron Paul um fenômeno da internet.

Em pouco tempo, Paul se viu com uma base de grassroots empolgadíssima. Graças aos sites de encontros, os internautas de todo país – aliás, de todo o mundo, visto que americanos no exterior também começaram a se envolver com a campanha – começaram a formar grupos locais e divulgar a candidatura de Paul. Estes grupos começaram a fazer cartazes, a distribuir folhetos, a telefonar para jornais e rádios locais; enfim, Paul conseguiu o sonho de todo candidato: uma militância entusiasmada e independente (ou seja: gratuita) para espalhar sua mensagem.

Bom, e como entra Iowa nesta história? Vamos lá.

Além das limitações de equipe e dinheiro, Paul tinha um sério problema em Iowa: a maior parte da população não estava alinhada ideologicamente com ele. Paul é um libertário, e por isso acha que o governo não deve subsidiar setores da economia nem legislar sobre questões morais. Apesar de Iowa ser um estado bastante conservador, este não é exatamente o tipo de conservadorismo que predomina lá. A direita em Iowa é, em sua maioria, “social conservative”, ou seja, conservadora em questões sociais, e não conservadora em questões econômicas (os “fiscal conservatives”). Por isso, os fazendeiros de Iowa estavam mais preparados para ouvirem Huckabee e Brownback falarem em subsídios para o setor agrícola do que ver Paul falando em por um fim à intervenção do governo na economia. Resumo do problema: nem Paul possuía uma equipe local, nem os ouvintes estavam especialmente predispostos a ouvir sua mensagem. Ou seja, não havia muito motivo para Paul investir na região.

Este, no entanto, não foi o que a campanha não-oficial pensou: ansiosos em mostrar que Ron Paul era um candidato forte, seus militantes espontâneos organizaram uma das campanhas não-dirigidas mais intensas que já vi. Eles editaram, produziram e distribuíram mais de 10 mil DVDs com vídeos de Paul, gravaram e colocaram no ar anúncios de rádio, produziram e publicaram anúncios nos jornais, telefonaram diretamente para os cidadãos de Iowa, levantaram mais de 20 mil dólares para pagar pela entradas no evento, além de pessoalmente viajarem para o local no dia da votação, realizando uma das manifestações mais animadas e barulhentas do dia.

Apenas depois de tantas demonstrações de apoio espontâneo, a campanha oficial começou em investir em Iowa; e, de fato, nas últimas semanas antes do evento eles investiram pesadamente: montaram um escritório oficial, organizaram eventos, colocaram anúncios na televisão e o próprio Ron Paul passou a última semana inteira participando dos eventos.

Por causa da conjunção destes fatores os resultados de Iowa se tornaram bastante peculiares para Paul. Por um lado, trata-se de um estado pouco receptivo onde a campanha oficial investiu pouquíssimo dinheiro; por outro lado, este estado foi alvo de um esforço inédito por parte da campanha não-oficial.

Eu havia dito, no meu texto sobre as expectativas dos resultados, que Ron Paul não tinha nem muito a ganhar nem a perder. Eu estava errado: caso analisássemos somente a partir do ponto de vista da campanha oficial, eu estaria certo; afinal, um resultado pobre não significaria muita coisa para uma campanha que gastou pouquíssimo tempo e dinheiro. No entanto, eu não estava considerando uma das principais peculiaridades da campanha de Ron Paul: suas chances de sucesso dependem inteiramente da campanha não-oficial e, portanto, qualquer coisa que afete sua “moral” é muito significativa.

Como eu já mencionei acima, a campanha não-oficial tem sido muito mais eficiente que a campanha oficial. A equipe de Ron Paul, por melhor intencionada que seja, não possui as condições necessárias para vencer estas eleições por conta própria. Caso Ron Paul consiga chegar à Casa Branca, será principalmente por mérito de sua campanha não-oficial.

O problema que isto gera é o seguinte: o sucesso da campanha simplesmente não está nas mãos de Paul e de sua equipe, mas sim, na mão dos inúmeros voluntários anônimos espalhados pelo país. Portanto, se o ânimo destes voluntários fraquejar, a campanha falhará; por outro lado, enquanto estes militantes permanecerem entusiasmados, a campanha terá fôlego para progredir.

Esta é a grande questão que pesa sobre Paul – e é uma questão que ele não pode controlar: a militância permanecerá entusiasmada? O quinto lugar em Iowa, do ponto de visto da campanha oficial, é um verdadeiro presente: eles não teriam conseguido por conta própria. Mas como isso será interpretado pela campanha não-oficial? Como uma oportunidade de aprendizado para lançar uma nova fase da campanha ainda mais eficiente? Ou como um sinal de que seus esforços serão em vão?

O resultado da campanha de Paul depende inteiramente de como sua militância independente responderá a esta questão.

Alguns se sentirão justamente desestimulados com o resultado; pois, de fato, uma colocação mais alta teria provado definitivamente a viabilidade da candidatura de Paul e gerado muita publicidade gratuita graças à cobertura da grande mídia. Por outro lado, eles também poderão se consolar com o pensamento de que, dadas às circunstâncias adversas, a colocação de Paul foi relativamente muito positiva.

Além de um possível desânimo de sua militância, Paul também tem outro problema: a campanha não-oficial é constituída de pessoas que jamais trabalharam em uma campanha política. Ao contrário do que muita gente pressupõe, fazer militância política não é apenas uma questão de empolgação: é preciso saber o “como” do ativismo. São necessários anos para um partido formar uma militância eficiente, que saiba organizar eventos, entrar em contato com a imprensa, envolver a população, difundir a mensagem, etc.

Paul não tem estes anos: por causa da sua idade, esta é certamente a sua última campanha para presidente – e provavelmente sua última campanha para qualquer cargo -, por isso, este momento é de “tudo ou nada” para ele. Além disso, apesar de faltar muito tempo para as eleições gerais, este é o momento em que a campanha precisa ganhar velocidade; portanto, seus militantes precisam parar de se preocupar com o resultado de Iowa e descobrir rapidamente como aumentar sua eficiência até o próximo grande evento.

Poderíamos concluir, portanto, que o quinto lugar foi uma posição razoável para Paul: nem vai alavancar sua campanha nem enterrá-la. Mas, em última instância, este resultado depende de como sua base vai agir: se será motivo para desânimo ou se o utilizará como uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Conseguirá Paul manter sua base entusiasmada e ativa? Veremos.

… continuo enviando a cobertura das eleições com regularidade britânica em meu boletim.

Aliás, há algumas semans o “boletim Ron Paul” está sendo enviado como parte do meu outro boletim: o “Comentário Lucas Mafaldo”. Resolvi unir os dois para simplificar as coisas.

Toda final de semana uma nova edição, com novas informações importantes. Não percam: http://snipurl.com/lucasmafaldo

Algumas pessoas acham que estou exagerando quando falo que as campanhas americanas são extremamente descentralizadas, conduzidas em grande parte pela própria população e não por equipes concentradas.

Bom, eu acho que estes dois vídeos provam meu argumento melhor do que qualquer coisa.

O primeiro é um clipe de uma música bastante agradável feita sem nenhuma participação da campanha oficial.

O segundo é um vídeo que ensina como fazer uns letreiros para colocar no topo do carro (deve ter um nome mais adequado que eu não conheço). Bom, uma empresa já disponibilizou a construir e distribuir estes letreiros, mas uns malucos resolveram criar um guia de como criá-los manualmente.

A campanha de Ron Paul está sendo especialmente interessante por funcionar com um grau inédito de espontaneidade e descentralização. Dá para imaginar coisa parecida aqui no Brasil?

(Este foi primeiramente publicado no Boletim Lucas Mafaldo)

O posicionamento de Ron Paul em relação à guerra do Iraque merece um esclarecimento especial – não apenas porque esta é uma das questões mais polêmicas da campanha, mas principalmente porque há uma grande probabilidade dela ser mal compreendida pelo grande público brasileiro.

Ron Paul, como a maioria dos jornalistas brasileiros, é contra a guerra do Iraque; no entanto, os seus motivos são muito diferentes dos motivos dos nossos jornalistas. Embora ambos sejamos contrários à guerra, os motivos dos dois lados são enormemente diferentes. E, como os brasileiros conhecem apenas um lado da história, acredito que existe uma boa chance de a posição de Paul seja confundida com a posição da mídia nacional.

Este artigo foi escrito justamente para evitar estas confusões e esclarecer quais são realmente os argumentos de Ron Paul contra a guerra.

Este artigo está dividido do seguinte modo: a primeira parte tem como objetivo diferenciar Ron Paul dos outros críticos da guerra; enquanto o restante trata dos verdadeiros argumentos de Paul contra a guerra.

Estes argumentos são os seguintes:

- Paul defende uma política externa não-intervencionista
- Uma intervenção militar não pode criar uma democracia
- Esta guerra não foi autorizada de maneira constitucional
- Esta estratégia trará conseqüências contrárias aos interesses americanos (blowback)
- A guerra está prejudicando seriamente a economia
- A guerra pode ser utilizada como desculpa para limitar os direitos dos indivíduos

1) O diferencial de Paul: contra a guerra, mas não contra os Estados Unidos

Comecemos pelo começo: Ron Paul é contra a guerra do Iraque; foi contra desde o início e é a favor de que as tropas sejam retiradas de lá o quanto antes. Esta também é uma posição majoritária entre a esquerda – mas Ron Paul certamente não é um esquerdista. Por isso, é importante esclarecer as diferenças entre ambos os lados.

Desde o seu início, a guerra do Iraque foi utilizada pelos esquerdistas como mais um item de sua campanha anti-americana. Esta campanha, no Brasil, foi especialmente bem sucedida, pois já existe entre nós um sentimento generalizado de ódio aos Estados Unidos – e a guerra do Iraque se tornou um componente muito importante desta campanha, pois ela simbolizaria a suposta “essência” do americanismo: militarismo, imperialismo e exploração.

Os esquerdistas mais afoitos – e desprovidos de senso de proporção – procuraram difundir a idéia de uma suposta “equivalência moral” entre os dois regimes – quando não afirmar, descaradamente, que Bush seria um sujeito “menos democrático” que Saddam. Este tipo de raciocínio, evidentemente, é totalmente absurdo, mas ainda assim parece que conseguiu conquistar grande parte dos brasileiros.

Por causa da onipresença da retórica esquerdista contra a guerra, o público naturalmente passou a identificar imediatamente a oposição à guerra com anti-americanismo; como se para se opor à guerra fosse necessário se opor também a tudo que os Estados Unidos representam.

No entanto, é possível ser contra a guerra e ao mesmo tempo defender os valores americanos; e esta é justamente a posição de Ron Paul, que acredita na liberdade individual, no regime de livre-mercado, na propriedade privada, em valores morais, na importância da família e da religião, e todos os demais valores que são caros ao conservadorismo americano – e mesmo assim se posiciona contra a guerra do Iraque.

Portanto, é preciso esclarecer que nem a guerra do Iraque representa a essência do projeto americano, nem ser contra a guerra significa ser contra os valores que formaram a nação americana – pois esta é exatamente a questão que corre grande risco de ser mal interpretada pela mídia brasileira.

Mas isto obviamente nos deixa com um problema: se Ron Paul é um autêntico patriota, quais são os motivos que o levaram a se opor à guerra? Bom, este é o objetivo do restante deste artigo, que analisará, um por um, cada um dos argumentos que Ron Paul tem utilizado nas discussões públicas.

2) Por uma política externa não-intervencionista

Um dos principais motivos da oposição de Ron Paul à guerra do Iraque é que ele sempre foi um defensor de uma política externa não-intervencionista; ou seja, ele acha que um país não deve se envolver nas questões internas dos outros países. Ron Paul, portanto, não apenas está se posicionando contra esta guerra em particular, mas ele quer mudar toda a direção da política externa americana.

De acordo com este princípio – que Ron Paul afirma se tratar da posição original dos Pais Fundadores e da antiga direita – os Estados Unidos deveriam evitar confrontos internacionais e intervir militarmente apenas quando sua própria segurança estivesse ameaçada. Ron Paul, aliás, defendia este princípio até mesmo durante os últimos anos da Guerra Fria, como vocês podem ver neste vídeo.

http://www.youtube.com/watch?v=80qaKEEQSLM

Isto não significa que Ron Paul ache que o modelo americano seja igual ou pior que os outros; pelo contrário: ele é um dos primeiros a defender as conquistas do seu país, sempre afirmando que a sociedade americana permitiu que seus cidadãos vivessem com uma quantidade inédita de liberdade e, exatamente por isso, alcançasse um nível também inédito de prosperidade. Ao contrário da esquerda americana, portanto, ele acredita no modelo americano, e acredita que os outros países se beneficiariam muito da adoção de um modelo semelhante. No entanto, ele não acredita que seja o papel do governo americano expandir este modelo pelo mundo. Se outros países quiserem mudar seus regimes, eles o farão por conta própria e não pela imposição de um Estado estrangeiro.

A oposição de Ron Paul à guerra do Iraque, portanto, se baseia em uma política externa que tem implicações muito mais amplas que apenas em relação a esta guerra em particular.

3) Força militar não gera democracia: a impossibilidade da criação artificial de novas ordens sociais

Tornam-se mais claras as diferenças entre Ron Paul e a esquerda anti-guerra, quando observamos que o não-intervencionismo se justifica por argumentos tipicamente conservadores, enquanto o intervencionismo trás claramente traços de uma ideologia esquerdista.

A idéia de que é possível transformar uma ditadura em uma democracia apenas através da remoção física do tirano se baseia no pressuposto de que os sistemas políticos existem por si mesmo e podem ser “implantados” segundo o desejo dos reformadores. Ora, embora este pressuposto esteja na base das últimas políticas do Partido Republicano, esta idéia é totalmente alheia ao pensamento conservador tradicional, que tende a observar os sistemas políticos mais como efeitos de uma determinada cultura do que como causas dela. Ou seja, os conservadores tendem a pensar que antes de existir um governo estável é preciso que já exista uma sociedade onde impere a cooperação e a confiança entre os seus indivíduos. Caso não existe esta cultura de cooperação e confiança, não é o governo que conseguirá criá-la através da força militar.

Por isso, é próprio dos conservadores usarem de muita prudência em suas intervenções sociais, pois eles sabem que não existe a “Sociedade”, mas sim, um conglomerado de indivíduos, cada qual com seus valores, idéias e projetos pessoais – e cada um deles muito pouco disposto a abrir mão de suas particularidades apenas por causa das exigências de algum burocrata. Enquanto isso, os esquerdistas tendem a confiar muito mais na sua capacidade de transformar a sociedade através de projetos reformistas e por isso tendem a achar que a ação política é a melhor maneira de melhorar a sociedade.

A idéia de espalhar a democracia através de intervenções militares, portanto, é estritamente anti-conservadora, pois um verdadeiro conservador saberia que cada ordem social possui profundas raízes na cultura de um povo, e não poderia ser facilmente alterada através de uma influência externa – muito menos se a influência externa é a força militar, que tende apenas a desorganizar as instituições vigentes, sem provocar mudanças no campo dos valores e das idéias.

Portanto, além de considerar que não é o papel do governo espalhar os valores americanos pelo mundo, Ron Paul tem alertado que, mesmo se o objetivo do governo fosse este, seria simplesmente impossível alcançá-lo através do uso da força militar. Ou seja: além deste não ser o papel do governo (pois ele deveria ser não-intervencionista), mesmo se fosse intervir, ele não alcançaria este objetivo através de uma invasão militar.

Por isso, Ron Paul defende que o único papel que o governo americano deve ter em relação às questões internas dos outros países é “dar um bom exemplo”. Ou seja, o governo americano deve mostrar ao mundo os benefícios de uma sociedade livre, sem se envolver diretamente nas decisões dos outros países em imitarem ou não o modelo americano.

4) A constituição e a guerra

Os dois argumentos anteriores são mais gerais, pois servem para criticar qualquer iniciativa intervencionista, mas Ron Paul também tem argumentos contra esta guerra em particular. Um dos mais importantes argumentos – e curiosamente pouco comentado pela grande mídia – é que a declaração de guerra não seguiu os devidos caminhos formais estabelecidos pela Constituição.

A Constituição Americana - muito sabiamente a meu ver - estabelece claramente uma distinção entre as responsabilidades do legislativo e do executivo em casos de guerra: cabe ao congresso decidir se haverá ou não uma declaração de guerra e, caso a decisão seja positiva, cabe ao executivo decidir como a guerra será travada.

A justificativa para esta divisão de poderes é a seguinte: deixando apenas o congresso com o poder de declarar uma guerra, os fundadores esperavam que nenhuma guerra fosse declarada por capricho, sem a devida consideração de que ela, de fato, representa os interesses do povo americano. Deste modo, os fundadores esperavam, por um lado, evitar que uma única pessoa – o presidente – pudesse concentrar poder demais em suas mãos; assim como também pretendiam entrar em guerra apenas quando o povo estivesse realmente unido em torno do mesmo objetivo, para que as divisões internas não enfraquecessem o país durante a luta contra o inimigo.

No entanto, uma vez feita a declaração oficial, o manejo da guerra ficaria exclusivamente nas mãos do presidente. A concentração das decisões táticas nas mãos de uma única pessoa é necessária porque todos os passos da guerra precisam estar de acordo com uma estratégia coerente de longo prazo. Essa coerência só pode ser alcançada se houver apenas um núcleo fazendo os planos e articulando as ações necessárias, enquanto o restante do exército segue as ordens dos seus superiores. Por isso, o congresso precisa confiar o manejo da guerra exclusivamente ao presidente; pois o próprio congresso, com suas centenas de palpiteiros, não teriam a agilidade e a coerência necessária para elaborar uma estratégia de longo prazo.

Os fundadores, portanto, entendiam que havia dois tipos de decisões: a decisão política (entrar ou não na guerra) e as decisões estratégicas (como a guerra deve ser conduzida). Como as decisões políticas precisam ser feitas com muita ponderação e respeito pela vontade popular, elas ficavam sob a responsabilidade do congresso; como as decisões estratégias precisavam de rapidez e coerência (e, muitas vezes, de discrição), elas ficavam sob a responsabilidade exclusiva do presidente e do seu comando militar.

O plano inicial dos fundadores, no entanto, foi desrespeitado inúmeras vezes ao longo das últimas décadas, e foi isto que aconteceu mais uma vez em relação à guerra do Iraque. Não houve uma declaração formal de guerra, apenas uma “autorização para o presidente usar força militar”. Com esta definição vaga, o congresso abriu mão de sua responsabilidade e deixou a decisão política exclusivamente nas mãos de Bush. Ron Paul se posicionou contra este medida desde o início, com um texto eloquentemente intitulado “violando a constituição com uma guerra ilegal”.

http://www.lewrockwell.com/paul/paul57.html

A sabedoria dos fundadores provavelmente teria evitado a confusão que se seguiu: quando a guerra se mostrou mais complicada do que o esperado, grande parte do congresso, da oposição e do público se voltou contra o presidente, acusando-o de tomar a decisão errada. A ausência da declaração inicial certamente contribuiu para esta divisão política que se seguiu: como os políticos e o povo não precisaram se comprometer devidamente antes do início da guerra, utilizaram isso como livre-conduto para deixar todo o problema nas mãos de Bush. Ora, mas a questão não é se Bush tomou a decisão errada ou não, a questão é que a decisão simplesmente não era dele e sim do congresso, que foi quem preferiu fugir de sua responsabilidade.

Desde então, a oposição parlamentar tem, oportunistamente, procurado interferir na condução da guerra, ao estabelecer prazos e objetivos, assumindo um poder que, este sim, deveria estar exclusivamente nas mãos do presidente. Ou seja, eles primeiramente abriram mão de suas devidas responsabilidades, e agora estão procurando utilizar um poder que lhes é indevido.

A guerra do Iraque, portanto, desde o seu início até a sua condução, tem se caracterizado por ultrapassar os limites constitucionais – e certamente parte dos problemas que os americanos estão enfrentando se deve ao fato de terem se afastado das lições dos fundadores.

Embora a defesa da Constituição devesse estar no programa de todos os partidos e candidatos, Ron Paul é um dos únicos candidatos que tem dedicados todos os seus esforços a fazer com que o governo retorne aos seus limites constitucionais – e o seu respeito pela Constituição é um dos principais motivos pelos quais ele rejeita a guerra do Iraque.

5) O argumento estratégico

Embora possua todos estes argumentos contra a guerra do Iraque, Ron Paul atraiu mais publicidade quanto enunciou os motivos estratégicos pelos quais se opõe a ela. Neste ponto, ele se baseia fortemente na teoria do “blowback”. Este teoria afirma que intervenções políticas ou militares podem ter o efeito contrário do esperado. Derrubar um regime anti-americano de determinado país, por exemplo, pode servir para aumentar ainda mais o já existe ódio contra os Estados Unidos e levar ao poder um grupo ainda mais radical e perigoso.

Alguns estudiosos do Oriente Médio – e, entre os citados por Paul, se destaca Michael Scheuer, ex-agente da CIA – afirmam que isto é precisamente o que está acontecendo na região. Com base nestes estudos, Paul tem afirmado que uma das principais causas do ódio dos radicais islâmicos pelos Estados Unidos são as intervenções americanas nestes países, sejam as invenções diretas (invasões militares ou acordos políticos com alguns governos locais) ou intervenções indiretas (apoio financeiro ou estratégico a grupos que queiram mudar o regime local). E, além disto, ele também afirma que enquanto os Estados Unidos continuarem intervindo na região, o anti-americanismo continuará a crescer.

Estas afirmações de Paul soaram muito polêmicas aos ouvidos de parte da direita americana, pois os argumentos mais respeitados entre alguns grupos são de que os principais fatores motivacionais para estes ataques são as diferenças culturais, religiosas e ideológicas, e não simplesmente o ressentimento por intervenções políticas e militares do passado.

Ron Paul tem concedido que existem também outros fatores que motivam estes radicais, mas ele permaneceu firme em suas afirmações de que a presença americana na região é uma das principais causas do anti-americanismo que só será revertida quando os Estados Unidos retirarem suas tropas do Iraque e dos países vizinhos e pararem de se envolver com os conflitos da região.

Infelizmente, a insistência de Paul neste argumento parece ter alienado parte da base conservadora, como se pode ver neste texto:

http://www.worldnetdaily.com/news/article.asp?ARTICLE_ID=56177

Os conservadores que apóiam a guerra, e que são verdadeiros patriotas, estão extremamente irritados com a esquerda por suas posições anti-americanas. Acredito que, por isso, parte da base conservadora descarta imediatamente qualquer discurso contrário à guerra - mesmo que seja um discurso sensato e pró-americano, como o de Paul – só porque lhe soa parecido demais com os argumentos dos esquerdistas. Resta saber se, ao longo da campanha, haverá espaço para uma discussão mais realista do tema.

6) A guerra e a economia

É muito comum ouvir dos críticos esquerdistas que a intervenção americana foi causada por fortes “interesses econômicos”. Ron Paul também ocasionalmente fala contra estes interesses, mas este também é um caso onde, embora ambos estejam dizendo as mesmas coisas, existem nuances diferente nos dois discursos.

Primeiramente, é preciso esclarecer a relação entre guerra e economia. Existe um mito de que as guerras são fontes de riquezas para as economias mais desenvolvidas, mas isto não faz o menor sentido; na verdade, o resultado geral de uma guerra sempre é de empobrecimento de todos os lados envolvidos.

Para demonstrar porque isto ocorre, basta que reflitamos um pouco sobre o que é riqueza: ao falarmos em riqueza estamos basicamente nos referindo à quantidade de bens e serviços disponíveis a um povo ou a um indivíduo; ou seja, uma pessoa ou um país é tanto mais rico quanto mais bens e serviços têm a sua disposição.

E qual o efeito da guerra sobre os bens e serviços? Ora, a guerra os diminui consideravelmente, porque fábricas, capital e trabalhadores são utilizados para produzir os equipamentos necessários para a guerra ao invés de bens e serviços para o povo. Em seguida, ao longo da guerra, os equipamentos criados deste modo serão destruídos e os soldados serão mortos; ou seja, todo o investimento feito neles será simplesmente perdido. Além disto, ao longo da guerra serão destruídas muitas construções e infra-estrutura e muitos civis serão mortos; ou seja, riquezas já conquistadas serão destruídas.

Ou seja, primeiramente grande parte dos recursos de uma sociedade é desviada para a guerra; e, depois, estes recursos serão destruídos durante a guerra, enquanto causam ainda mais destruição ao lado adversário. Portanto, todos os lados perdem muito do que haviam acumulado anteriormente.

Toda guerra, portanto, implica em uma grade perda de vidas e em um grande desgaste social e econômico. O que pode acontecer em termos de ganho de riqueza, evidentemente, é que, no meio do empobrecimento geral, alguns indivíduos consigam aproveitar da confusão para acumular grandes lucros ao custo dos demais, seja roubando propriedade (ocupando recursos naturais ou roubando bens de outro povo) seja vendendo algo para um dos lados (equipamento militar, por exemplo).

Por isso, qualquer guerra é contra os interesses econômicos de um país; embora alguns indivíduos possam lucrar com ela, o país como um todo sairá muito prejudicado. E é isto que está acontecendo com a guerra do Iraque: o povo americano está pagando um preço muito grande por ela, tanto financeiramente quanto em termos da perda de vidas humanas.

Ron Paul acredita que a economia americana está cada dia mais fraca e que o grau de endividamento do governo está em níveis alarmantes. Ele acredita que se o governo não cortar drasticamente seus custos, os Estados Unidos podem se aproximar de uma crise financeira. E a melhor maneira de evitar isto é cortar os gastos militares que são largamente responsáveis pelos déficits governamentais.

7) A guerra e os direitos civis

Por fim, Ron Paul também sempre relembra o ditado “War is the health of the State” que, em uma tradução aproximada, significa que “a guerra é a fonte da saúde do Estado”. O que isto quer dizer que é guerra sempre oferece uma oportunidade para que se aumente o poder do governo central sobre os indivíduos.

Como as pessoas ficam naturalmente assustadas em um período de guerra, elas ficam mais dispostas a abrir mão de suas liberdades, caso ela sejam persuadidas que isto ajudará a sobrevivência de seu país. Durante uma guerra, o Estado sempre encontra mais facilidade em aumentar o seu controle sobre a economia e sobre as vidas privadas de seus cidadãos - independente deste maior controle estar ou não realmente ajudando no esforço de guerra. Além disto, depois que o Estado assume certos poderes, é difícil forçá-lo a voltar aos seus limites originais, mesmo quando a ameaça que provocou este crescimento já não existe mais.

Esta tendência do Estado crescer durante o período de guerra também se manifestou durante a guerra do Iraque. Com medidas como o “Patriot Act”, o governo federal criou novas restrições sobre a privacidade dos americanos.

Algumas pessoas argumentam que este tipo de restrição é necessário durante uma guerra, mas os defensores da preservação destes direitos civis contra-argumentam o seguinte: “guerra contra o terrorismo” é um termo vago demais, que não estabelece objetivos definidos e verificáveis; como não há uma boa definição de qual é o inimigo nem de qual objetivo de ser alcançado, este termo poder ser apenas uma desculpa para uma interminável restrição dos direitos dos cidadãos.

Ron Paul, seguindo a tradição dos libertários e dos conservadores, é contra um Estado grande – e, principalmente, contra um Estado que tenha o poder de quebrar a privacidade das pessoas e controlar o que elas estão fazendo. Por isso, ele é contra toda e qualquer tentativa de limitar os direitos dos indivíduos, mesmo em época de guerra – e, principalmente, durante uma guerra que não foi declarada da maneira apropriada como esta. Ele lamenta que as pessoas estejam tão assustadas ao ponto de aceitar estas limitações em seus direitos e, além de interromper a guerra, pretende restaurar estes direitos o quanto antes.

Conclusão

Ron Paul possui muitos e bons argumentos contra a guerra do Iraque. Ao contrário de muitos dos argumentos da esquerda – mais preocupada em denegrir a imagem dos Estados Unidos do que em propor um debate sério – os argumentos de Paul são muito bem pensados e se apóiam em uma defesa de liberdade que está inteiramente dentro dos valores americanos.

Esperemos que, ao longo da campanha, ele tenha a oportunidade de colocar estas questões em debate e que elas sejam discutidas com a seriedade que merecem.

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BOLETIM RON PAUL — No. 01 — 09/07/07
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Caro leitor,

Seja bem-vindo ao Boletim Ron Paul. O impulso inicial para criar este boletim – e o nosso site – foi simplesmente o entusiasmo de ver o crescimento da campanha de Ron Paul. O passo seguinte foi comparar o que estávamos lendo nos sites americanos com o que saia na mídia brasileira, para vermos como os nossos jornalistas estavam despreparados oferecem uma boa cobertura desta campanha. Decidimos, então, fazer o que fosse possível para melhorar esta situação. Nossa missão, portanto, é oferecer aos brasileiros a melhor cobertura sobre a candidatura de Ron Paul que pudermos.

Esta missão, por sua própria natureza, tem dois aspectos: um informativo e outro educativo – e nosso boletim será feito sempre com o objetivo de contemplar esta natureza.

O aspecto informativo é simplesmente a transmissão de notícias; ou seja, é o trabalho jornalístico. Para realizá-lo, vamos reunir as principais notícias da semana e oferecer um breve resumo, em português, para elas.

O segundo aspecto - o educativo - se refere ao fato de que as influências intelectuais de Ron Paul são largamente desconhecidas em nosso país. Por trás de cada uma de suas propostas, existe uma justificativa teórica para elas – e estas justificativas simplesmente somem da cobertura padrão da imprensa. Os leitores do nosso boletim poderão contornar essa limitação: a cada edição, traremos uma explicação dos princípios subjacentes à campanha de Ron Paul.

Nosso boletim será enviado semanalmente e, a partir da próxima edição, deverá sempre ser enviado durante o fim-de-semana.

Os leitores estão convidados a enviar suas contribuições; comentários que sejam pertinentes ao tema e elucidativos para nossos assinantes serão bem-vindos.

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Um abraço,
Lucas Mafaldo.
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NESTA EDIÇÃO – ÍNDICE DO BOLETIM
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- O que são as “Grassroots campaigns”? – Entenda um conceito essencial do processo político americano.

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Em entrevista à ABC News, Ron Paul declarou que sua campanha tem 2,4 milhões de dólares em caixa, ultrapassando os 2 milhões de McCain. Será que a ultrapassagem nos números da arrecadação não está prenunciando uma ultrapassagem no número de votos?

Notícia completa em inglês: Ron Paul Tops McCain in Cash on Hand

Uma das coisas curiosas sobre a campanha de Ron Paul é sua capacidade de unir os mais diferentes grupos sociais. A explicação que ele mesmo dá ao fenômeno faz bastante sentido: “a mensagem da liberdade nos une”. De fato, é isto que tem acontecido, e nada mostra isso tão bem quanto esse vídeo: Ron Paul inspirou nada menos que… um reggae! Que outro candidato uniria, em uma mesma convenção, engravatados e rastafaris?

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