O que o resultado de Iowa significa para Ron Paul
Agosto 13, 2007 de lucasmafaldo
Ron Paul certamente foi um dos candidatos que mais gerou expectativas em Iowa; basicamente porque ninguém tinha muita certeza de qual seria sua colocação final. Havia desde quem achasse que ele ficaria entre os últimos como quem esperasse que ele conseguiria pelo menos o segundo lugar. Tamanha disparidade nas expectativas merece uma explicação.
A campanha de Ron Paul certamente é uma das mais atípicas deste ano – tão atípica que merece uma explicação detalhada do assunto. Ela é um caso extremo de campanha descentralizada e de ativismo espontâneo. Isto, como eu falei em outros texto, é uma característica comum das campanhas americanas, mas no caso de Ron Paul isto foi levada a um ponto inédito. Aliás, já se fala abertamente que existem duas campanhas de Ron Paul: a campanha oficial, dirigida pela equipe do próprio Paul, e a campanha não-oficial, que não tem um centro de planejamento, mas sim, vários focos independentes, que se organizam através de blogs, fóruns on-line e grupos locais.
A campanha não-oficial, diga-se de passagem, tem sido extremamente eficiente; provavelmente até mais eficiente que a campanha oficial.
A campanha oficial de Paul claramente não tem o mesmo profissionalismo das campanhas de Romney, McCain e Giulini. Estes “grandes” candidatos têm equipes caríssimas e enormes, contratam as melhores empresas de publicidade, os melhores técnicos de comunicação, além de estarem o tempo inteiro em contato direito com os grandes órgãos de comunicação.
A campanha de Paul, por outro lado, transparece a todo momento tratar-se de uma campanha do “homem comum”. Paul certamente não é um novato na política – foi um membro do congresso por várias décadas – mas, mesmo assim, conseguiu permaneceu todo este tempo fora dos grupos de elite e das maquinações dos bastidores. Em uma de suas campanhas para o congresso, aliás, ele teve que enfrentar oposição dentro do próprio partido, que preferia eleger um candidato mais de acordo com os planos da elite dirigente.
Paul, portanto, sempre manteve uma áurea de “outsider”, do sujeito que entrou em Washgton sem precisar se dobrar a nenhum dos esquemas de poder. Isto, aliás, explica parte do seu sucesso político: a fama de austeridade, honestidade e firmeza em seus princípios acabou por gerar um círculo extremamente fiel de seguidores por todo o país. Mesmo se candidatando a deputado pelo Texas, Paul sempre recebeu múltiplas doações de outros estados, de indivíduos que acreditavam tanto nele que preferiam financiar um candidato de outra região.
Mas se ser um “outsider” pode ser muito útil para vencer eleições para deputado, as coisas ficam enormemente mais complicadas para se eleger para presidente. As eleições presidenciais exigem um grau muito mais alto de profissionalismo na criação e difusão de uma “imagem presidencial”. Ron Paul nunca aprendeu isso: por incrível que pareça, eis um político que se preocupa mais em estudar os assuntos e formar uma opinião própria bem fundamentada do que tentar lisonjear o público. Esta postura, evidentemente, tem como resultado solidificar a admiração de uma base fiel, mas não se traduz com tanta facilidade em votos da grande massa de eleitores.
Estas características de Paul – simplicidade, sinceridade e austeridade – tem se refletido na maneira como sua campanha oficial tem sido conduzida; afinal, esta é composta basicamente de familiares, amigos e colegas de décadas de trabalho, que já refletem o próprio modo de ser de Ron Paul. Isto tudo é muito bonito, não há dúvidas; mas a campanha não estava sendo conduzida com a agressividade necessária para ganhar as eleições. Por isso, os analistas experientes, desde o início, descartaram Paul como um candidato viável. É preciso entender porque eles tinham alguma razão: Paul realmente não tinha o tipo de estrutura de campanha que costuma caracterizar os futuros presidentes.
Por outro lado, o que estes analistas não consideraram foi o poder da militância espontânea de Ron Paul. Assim que os rumores de sua candidatura começaram a circular, os antigos fãs, fieis de longa data, logo começaram a agitar a internet a seu favor. O interessante é que esta empolgação, gerada por pessoas fora da campanha oficial, logo cresceu gigantescamente, fazendo de Ron Paul um fenômeno da internet.
Em pouco tempo, Paul se viu com uma base de grassroots empolgadíssima. Graças aos sites de encontros, os internautas de todo país – aliás, de todo o mundo, visto que americanos no exterior também começaram a se envolver com a campanha – começaram a formar grupos locais e divulgar a candidatura de Paul. Estes grupos começaram a fazer cartazes, a distribuir folhetos, a telefonar para jornais e rádios locais; enfim, Paul conseguiu o sonho de todo candidato: uma militância entusiasmada e independente (ou seja: gratuita) para espalhar sua mensagem.
Bom, e como entra Iowa nesta história? Vamos lá.
Além das limitações de equipe e dinheiro, Paul tinha um sério problema em Iowa: a maior parte da população não estava alinhada ideologicamente com ele. Paul é um libertário, e por isso acha que o governo não deve subsidiar setores da economia nem legislar sobre questões morais. Apesar de Iowa ser um estado bastante conservador, este não é exatamente o tipo de conservadorismo que predomina lá. A direita em Iowa é, em sua maioria, “social conservative”, ou seja, conservadora em questões sociais, e não conservadora em questões econômicas (os “fiscal conservatives”). Por isso, os fazendeiros de Iowa estavam mais preparados para ouvirem Huckabee e Brownback falarem em subsídios para o setor agrícola do que ver Paul falando em por um fim à intervenção do governo na economia. Resumo do problema: nem Paul possuía uma equipe local, nem os ouvintes estavam especialmente predispostos a ouvir sua mensagem. Ou seja, não havia muito motivo para Paul investir na região.
Este, no entanto, não foi o que a campanha não-oficial pensou: ansiosos em mostrar que Ron Paul era um candidato forte, seus militantes espontâneos organizaram uma das campanhas não-dirigidas mais intensas que já vi. Eles editaram, produziram e distribuíram mais de 10 mil DVDs com vídeos de Paul, gravaram e colocaram no ar anúncios de rádio, produziram e publicaram anúncios nos jornais, telefonaram diretamente para os cidadãos de Iowa, levantaram mais de 20 mil dólares para pagar pela entradas no evento, além de pessoalmente viajarem para o local no dia da votação, realizando uma das manifestações mais animadas e barulhentas do dia.
Apenas depois de tantas demonstrações de apoio espontâneo, a campanha oficial começou em investir em Iowa; e, de fato, nas últimas semanas antes do evento eles investiram pesadamente: montaram um escritório oficial, organizaram eventos, colocaram anúncios na televisão e o próprio Ron Paul passou a última semana inteira participando dos eventos.
Por causa da conjunção destes fatores os resultados de Iowa se tornaram bastante peculiares para Paul. Por um lado, trata-se de um estado pouco receptivo onde a campanha oficial investiu pouquíssimo dinheiro; por outro lado, este estado foi alvo de um esforço inédito por parte da campanha não-oficial.
Eu havia dito, no meu texto sobre as expectativas dos resultados, que Ron Paul não tinha nem muito a ganhar nem a perder. Eu estava errado: caso analisássemos somente a partir do ponto de vista da campanha oficial, eu estaria certo; afinal, um resultado pobre não significaria muita coisa para uma campanha que gastou pouquíssimo tempo e dinheiro. No entanto, eu não estava considerando uma das principais peculiaridades da campanha de Ron Paul: suas chances de sucesso dependem inteiramente da campanha não-oficial e, portanto, qualquer coisa que afete sua “moral” é muito significativa.
Como eu já mencionei acima, a campanha não-oficial tem sido muito mais eficiente que a campanha oficial. A equipe de Ron Paul, por melhor intencionada que seja, não possui as condições necessárias para vencer estas eleições por conta própria. Caso Ron Paul consiga chegar à Casa Branca, será principalmente por mérito de sua campanha não-oficial.
O problema que isto gera é o seguinte: o sucesso da campanha simplesmente não está nas mãos de Paul e de sua equipe, mas sim, na mão dos inúmeros voluntários anônimos espalhados pelo país. Portanto, se o ânimo destes voluntários fraquejar, a campanha falhará; por outro lado, enquanto estes militantes permanecerem entusiasmados, a campanha terá fôlego para progredir.
Esta é a grande questão que pesa sobre Paul – e é uma questão que ele não pode controlar: a militância permanecerá entusiasmada? O quinto lugar em Iowa, do ponto de visto da campanha oficial, é um verdadeiro presente: eles não teriam conseguido por conta própria. Mas como isso será interpretado pela campanha não-oficial? Como uma oportunidade de aprendizado para lançar uma nova fase da campanha ainda mais eficiente? Ou como um sinal de que seus esforços serão em vão?
O resultado da campanha de Paul depende inteiramente de como sua militância independente responderá a esta questão.
Alguns se sentirão justamente desestimulados com o resultado; pois, de fato, uma colocação mais alta teria provado definitivamente a viabilidade da candidatura de Paul e gerado muita publicidade gratuita graças à cobertura da grande mídia. Por outro lado, eles também poderão se consolar com o pensamento de que, dadas às circunstâncias adversas, a colocação de Paul foi relativamente muito positiva.
Além de um possível desânimo de sua militância, Paul também tem outro problema: a campanha não-oficial é constituída de pessoas que jamais trabalharam em uma campanha política. Ao contrário do que muita gente pressupõe, fazer militância política não é apenas uma questão de empolgação: é preciso saber o “como” do ativismo. São necessários anos para um partido formar uma militância eficiente, que saiba organizar eventos, entrar em contato com a imprensa, envolver a população, difundir a mensagem, etc.
Paul não tem estes anos: por causa da sua idade, esta é certamente a sua última campanha para presidente – e provavelmente sua última campanha para qualquer cargo -, por isso, este momento é de “tudo ou nada” para ele. Além disso, apesar de faltar muito tempo para as eleições gerais, este é o momento em que a campanha precisa ganhar velocidade; portanto, seus militantes precisam parar de se preocupar com o resultado de Iowa e descobrir rapidamente como aumentar sua eficiência até o próximo grande evento.
Poderíamos concluir, portanto, que o quinto lugar foi uma posição razoável para Paul: nem vai alavancar sua campanha nem enterrá-la. Mas, em última instância, este resultado depende de como sua base vai agir: se será motivo para desânimo ou se o utilizará como uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Conseguirá Paul manter sua base entusiasmada e ativa? Veremos.
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