Bush e os neoconservadores: entre a direita e a esquerda
Dezembro 30, 2007 de lucasmafaldo
Trecho da primeira edição do Comentário Lucas Mafaldo, enviado em 22 de julho de 2007.
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Bush e os neoconservadores: entre a direita e a esquerda
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(artigo enviado para o Litoral, jornal local do RN)
No imaginário brasileiro, Bush já se tornou sinônimo de direitista; por isso, cada derrota política sua – como a ocorrida nas eleições parlamentares do ano passado - é vista como uma derrota da direita.
Isto, no entanto, é um grande engano: um dos grandes motivos da queda da popularidade de Bush é justamente o fato de que seu governo deixou sua base conservadora decepcionadíssima. Ou seja, o problema de Bush não é ser de direita – o problema é não ser direitista o suficiente.
Provas disso não faltam, mas a mais eloqüente certamente é o título do livro de Vigueire sobre a presidência de Bush: “Conservadores traídos”. O sentimento de traição vem do fato de que Bush simplesmente não fez as reformas conservadoras que se esperava dele, como cortes nos gastos públicos e diminuição do aparelho do Estado. Ao invés disto, os gastos públicos e a inferência estatal na vida e na economia das pessoas chegaram a aumentar ainda mais. Ou seja: a política
interna de Bush é pouquíssimo conservadora, e este é um dos grandes motivos que o levaram a perder o apoio popular.
Além disto, se a política interna de Bush não é tipicamente de direita, sua política externa não fica muito atrás. Os brasileiros já se acostumaram a pensar que o militarismo e o expansionismo americanos são típicas políticas de direita, no entanto, há muitos bons argumentos afirmando exatamente o contrário.
A principal influência ideológica sobre o governo de Bush é o neoconservadorismo que, apesar do nome, é significativamente diferente do conservadorismo original. É verdade que existe algo em comum entre eles: todos colocam um alto valor na democracia representativa, na divisão dos poderes, nos direitos civis e na economia de mercado. No entanto, as diferenças entre eles são importantíssimas.
A principal característica do projeto neoconservador é procurar expandir a democracia pelo mundo, usando todos os meios necessários, inclusive a força militar. Os conservadores tradicionais não acreditam na viabilidade deste projeto, pois eles entendem a democracia só é possível quando já existem certos requisitos morais e culturais na população. Ou seja, se um povo não está culturalmente preparado para viver democraticamente, simplesmente não vai ser possível forçá-lo a
mudar de regime político.
A idéia de transformar o Iraque em uma democracia, portanto, é tipicamente neoconservadora, mas é também uma idéia que os verdadeiros conservadores julgariam simplesmente impossível de ser realizada.
Bush, portanto, não é um bom representante do conservadorismo filosófico. Os conservadores o apoiaram principalmente porque faltaram líderes melhores. Uma situação, aliás, que irá se repetir novamente nas próximas eleições, caso nenhum candidato conseguia unir a base do movimento conservador.
(Fim do artigo - continuação exclusiva para os assinantes do boletim)
As raízes esquerdistas do neoconservadorismo
O que eu não mencionei no meu artigo para o jornal, por falta de tempo, foi que existe até mesmo um autor, Justin Raimondo, que defende que o neoconservadorismo está em total descontinuidade com a antiga direita americana.
Ainda não pude ler o seu livro sobre o assunto, mas pelo que entendi dos artigos, ele defende que o neoconservadorismo é simplesmente uma deturpação do conservadorismo original, causada, de certo modo, pela “conversão” de vários trotskistas à direita.
Estes ex-militantes trotskistas - mesmo depois de se converterem da importância da economia de mercado, do Estado de direito e da democracia representativa – continuaram com alguns “hábitos de pensamento” típicos da ideologia que tinham abandonado: especialmente a idéia da “revolução internacional” que, agora, já não teria mais como objetivo a expansão do socialismo, mas sim, a da democracia.
Neste artigo, Jeet Heer tanto mostra como ex-militantes trotskistas – entre eles o próprio Christopher Hitchens - se tornaram influentes dentro do partido republicano, como também mostra a controvérsia em torno deste tipo de afirmação:
http://home.alphalink.com.au/~radnat/austindependence/neo-cons.html
Para quem se interessar, o livro de Raimondo pode ser adquirido por aqui:
http://antiwar.com/raimondo/book1.html
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Os Conservadores e as primárias republicanas
Ao final do artigo, mencionei brevemente a ausência de uma liderança conservadora. Como meu propósito é também oferecer uma cobertura sobre a candidatura de Ron Paul, acredito que seria interessante oferecer um breve quadro sobre a situação atual das eleições.
Os candidatos que estão na frente – em dinheiro e nas pesquisas – são Romney e Giuliani. Nenhum dos dois possui sólidas credenciais conservadores. Romney já foi atrás e voltou na questão do aborto e do casamento entre homossexuais. Ultimamente, adotou um discurso fortemente conservador, mas o seu histórico como governador não aponta na mesma direção. Giuliani é firme na questão de segurança, mas adota posturas esquerdistas em relação ao direito de portar armas, casamento homossexual e aborto. Os conservadores, obviamente, não confiam muito em nenhum dos dois. O terceiro candidato mais bem colocado – McCain – está perdendo dinheiro e pontos nas pesquisas. Além de sempre ter sido visto como um republicano moderado, já está quase fora das eleições.
Por este motivo, todos os olhos estão voltados para Fred Thompson, que nem lançou oficialmente sua candidatura ainda e, no entanto, já está sendo alvo de críticas por parte dos conservadores:
”Conservatives, Beware of Fred Thompson - Richard A. Viguerie”
http://snipurl.com/1olyb
Tirando estes, restam apenas aos conservadores, candidatos pouco conhecidos e com pouquíssimo dinheiro, como Brownback, Hunter e Tancredo. Até agora, não me parece que nenhum destes três tem chances razoáveis de conseguir vencer as primárias.
O único dos candidatos de “segundo escalão” a ganhar notoriedade foi Ron Paul, mas o movimento ao redor dele não corresponde ao campo conservador. Ao redor dele está se formando um grupo de pessoas com diferentes orientações ideológicas: libertários (alguns mais à esquerda outros mais à direita), constitucionalistas, esquerdistas anti-guerra e pró-direitos civis e, evidentemente, também alguns conservadores.
Sua rígida posição contra a guerra do Iraque, no entanto, o tem afastado da base conservadora. Além disto, nem todos os conservadores simpatizam com todas suas propostas libertárias (como sua intenção de parar com a “guerra contra as drogas”).
Caso Paul pudesse somar o apoio dos grupos conservadores de grassroots ao seu círculo fiel de seguidores, talvez tivesse força suficiente para competir com os candidatos fortes, mas ainda não há indícios de que isso irá acontecer. Parece que a guerra se tornou tão importante ao ponto dos republicanos preferirem eleger o abortista e anti-armas Giuliani a um autêntico representante da antiga direita como Paul.
Alguns autores, no entanto, estão defendendo que mesmo com a provável derrota de Paul, sua candidatura servirá para revitalizar a antiga direita e formar toda uma nova geração de políticos.
É o que Justin Raimondo, por exemplo, defendeu em seu último – e excelente – artigo: “Ron Paul: a consciência do conservadorismo”. O artigo é longo, mas a leitura realmente vale a pena.
”Ron Paul: The Conscience of Conservatism.”
http://snipurl.com/1olz0
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